Brasil

Começo a escrever sobre o Brasil com um texto narrando quando fui pela 1ª vez a Aiuruoca, cidade aonde meu pai nasceu (na fazenda Açude) e aonde vovô Justiniano tinha a fazenda Angaí. (que mais tarde vendeu e mudou para o estado do RJ).
Fui participar de uma reunião de família (Junqueira Arantes) e encontrei vários primos que não via a muitos anos, dentre eles o Oto que teve um papel de destaque nas minhas memórias por ter sido meu “iniciador” nas caçadas, atividade que ficou marcada na minha infância como uma grande aventura a cavalo.
Desde criança em quase todas as férias eu ia para fazenda (ou de meu avô materno e da tia Célia no interior de SP, ou da família de meu pai em Cruzília, MG). Eu gostava das duas opções. Em SP eram as gincanas a cavalo, os passeios até a cidade com as primas e muitas vezes, passeios que eu fazia sozinho. Tenho boas lembranças das férias na fazenda da tia Célia em Pirajuí quando saia sozinho com o Maquininha (acho que tinha esse nome porque marchava como uma máquina) e ficava horas andando pelos campos, descobrindo coisas, lugares e sentindo sensações novas. Eu era criança e isso me marcou, pois continuei a fazer durante toda a vida muitas viagens sozinho. As vezes quando estou viajando sozinho, sinto falta de companhia, para conversar, comentar o que estou vendo ou sentindo mas ao mesmo tempo sozinho posso ser fiel a meus desejos e vontades, alterando roteiros e aprendendo a lidar com o imprevisível.
Em Minas, minha grande lembrança é das caçadas ao veado. Era uma emoção muito grande para uma criança, sair antes do sol nascer no meio de mais de dez caçadores (primos e tios) com aquela matilha de cães (mais de 30) pelos campos o dia todo, só voltando a noite. Como dizia um dos grandes caçadores, Geraldo Junqueira de Andrade, o capitão, “uma caçada não se assiste, participa-se” e é por isso que a emoção de quem participou é difícil de ser descrita. Mas vou comentar alguns detalhes. A região de Cruzília tem topografia acidentada com altitude media e vegetação com um pouco de mato, capoeira e muitos campos. O clima é ameno, bom para os longos percursos das caçadas.
Em dia de caçada o programa começava de madrugada, as 4 horas com a preparação dos cavalos, equipamentos e dos lanche, e as 6 horas saíamos. A saída cedo tinha uma razão: os veados costumavam pastar de madrugada e de manhã deitavam para descansar. Os cachorros na minha época já eram os Fox Hunter e era muito bacana observar a diferença entre eles. Tinha cachorro que latia e ninguém dava bola, já haviam aqueles que eram mestres, quando davam um sinal (posição de sentido com as orelhas rijas) era seguro que tinha encontrado um rastro. Existiam 3 tipos de veado, o campeiro (dos campos), o catingueiro (das matas mais fechadas) e o mateiro (do mato). A caçada do catingueiro (velhaco) era a mais demorada e ao mesmo tempo mais interessante pois o veado costumava se embrenhar na vegetação e enganar o cachorro quando alcançava um rio e nadava rio abaixo.
As caçadas eram uma diversão e ao mesmo tempo um esporte para os cavaleiros e campo de treino para cachorros e cavalos. Seguramente foi a principal forma de seleção da raça Mangalarga que teve seu início e desenvolvimento naquela região (Cruzília é conhecida como Berço do Mangalarga Marchador). Nas caçadas dos campeiros, muitas vezes aconteciam galopes de até 10 km, chegávamos a cavalgar por até 12 horas seguidas, ou seja, o cavalo tinha que ser bom e a comodidade de seu andamento era fundamental.
Obs: Importante destacar que nenhum caçador levava espingarda e que o objetivo não era matar os veados e sim praticar um lazer e esporte. Sempre que possível, deixando o veado livre no final. (algo como o “pesque e solte” de hoje)
Neste período eu nunca tive o meu cavalo, apesar de ter aquele em que eu andava sempre. Meu sonho só foi se realizar quando já casado e com filhos, morando em Santa Catarina, pude comprar meu sitio. Lá eu fazia um pouco de tudo que havia devorado nos livros e revistas.

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